- Pode falar agora?
“E, entre os dois, a ideia de um sinal, traçado em luz...”
Ah eu não tenho muito do que reclamar, sabe? Não muito, por que um pouquinho a gente sempre tem né, a reclamância dá gosto pra coisa! Quarenta e cinco anos de casa, com casa e bem casada com o mesmo amor da minha vida e digo mais, nunca precisei se quer espichar o olho pra qualquer outro rapazote que me desse chance. E foi sempre assim, eu e ele, a viola dele e a minha gatinha, as flores dele e as minhas receitas, tudo assim, abençoado e saboreado por Deus, que nos proteja sempre, amém!
“A tarde dói... de tanto igual.”
A gente se conheceu era tudo mocinho, sabe? Meu sonho era encontrar um amor como aqueles que a gente se lia em livro, bonito, que parece bordado em renda holandesa de tanta flor que o romance enfeita, mas num acontece né menino, cê sabe como é né? A poesia é os traço delicado de tinta que pinta a cor dos olhos, e na maioria das vezes a gente leva uma vida cega. A gente se olhou, eu virei pro balcão e fiquei esperando minha bebida, quando eu olhei ele não tava mais lá onde eu tinha visto, não. Mas, pra minha surpresa, ele tava sentado bem do meu outro lado, parado com uma cara de assustado que dava medo... Eu? Ah eu devia tá com a cara mais assustada que a dele, foi a primeira vez que eu senti a leveza de um bordado holandês. Foi a primeira vez que eu senti borboletas na barriga. Ele perguntou meu nome e eu disse! Eu perguntei o dele e ele respondeu: Planura! O bicho tava tão nervoso que mal conseguia falar direito, falou onde morava no lugar da graça que tinha, o que teve sua graça; Eu que já tinha me encantado por aqueles olhos escuros e assustados, chamei o garçom e pedi algo que pudesse deixar ele mais tranquilo e aí depois disso o depois se tornou agora e a coisa toda aconteceu acontecendo por quarenta e cinco anos bem casados e repousados nas mãos de Deus, que nos proteja sempre, amém!
“Que luz que faz...”
Lembro que quando ele foi conhecer meu pai, ele chegou vestidinho com um terno que eu nunca tinha visto. Mais velho que os pano que a minha mãe usava pra limpar a casa, mas tava formoso, com o cabelo penteado de lado e uma sacola na mão, trouxe trufas pra sobremesa da janta... O meu pai? O meu pai já foi logo de bica soltando um “chocolate pra adoçar o que, rapaz?”, mas tudo se deu bonito, ele teve a sorte do meu pai ser professor de biologia da escola de ensino médio da cidade e gostar tanto de flor quanto o próprio que era dono de uma floricultura lá na cidade dele. Ele me chama de “minha flor” até hoje. Inclusive nosso casamento foi o “casamento mais florido que a cidade já viu”, saiu no jornal. ... Pra que falar de problema se a vida foi muito mais bela do que feia? Menino, entende uma coisa, tamarindo é azedo, mas é você que escolhe chupar ele ou não, entendeu?
“Mas, a voz diz...”
A Alice é minha gatinha desde tempo de moça, ganhei do meu primeiro namorado, ele não faz ideia disso ... Vixe é mesmo, vai fica sabendo agora! Ah, fica tranquilo, nosso nó tá mais do que bem dado já! Ele tem muito medo de borboleta, sabe? O que de certa forma chega ser engraçado, porque um homem que mexe com flor não podia ter medo das suas damas, pois tem. Pelo contrário, Alice adora uma borboleta. Tava pensando, borboleta é um bicho que tá sempre na nossa história. Ele morre de medo, a gata gosta de brincar e eu, eu sinto elas na barriga que nem da primeira vez, todo dia, quando o portão abre as 18h da tarde. Não sei dizer por que e prefiro nem saber por que, tá tão bom do jeito que tá, elas se avoam todas dentro de mim, deve ser daí a leveza do meu amor.
... Ah, o resto de tempo que Deus, que nos proteja sempre, amém, puder dar vida pra nós dois. Eu tive um filho só, um filho bem tido, daqueles de encher de orgulho o peito da gente, cheio de problema que nem o pai dele, que nem eu, mas quem não tem problema? Só sei que dos problemas que ele me deu, os mais gostosos passavam o domingo correndo, outro sempre arrebentava as corda do violão do avô dele e a outra gostou sempre muito de jogar bola... Três netos, uma molecada linda de dar gosto, dois menino e uma menina. Do resto, não tenho do que reclamar muito não. Até porque eu to véia, e a minha pouca reclamância é charme da minha idade E só peço aos céus a força final, o ultimo tranco pra dar conta de sentir que eu passei por essa terra e que to indo embora dela com as unha suja, do resto, eu vou ser feliz.
“Motriz...
Matriz....
Motriz...”
- Corta!
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
sábado, 27 de novembro de 2010
Amor de pai e filho
Da lasca da madeira, ouvia o insistente compassar de dentro da casa.
Os cômodos vazios suspiravam um ambiente que tinha na lembrança recente dos tintilares de garfos e facas e elogios saborosos em relação à comida, que ainda se mantinha na mesa e em perfume no ar, o ultimo estrondo da porta. Ao longe se ouvia um gemido baixo, um choro fraco que molhava os lençóis azuis do ultimo quarto do corredor. Paulo.
O rodapé era sempre enfeitado com uma bola de capotão encardida, pelo tempo, que ganhara no seu primeiro aniversário. Gostava de se deitar no chão frio do quarto, sobre o tapete branco que combinava com a única parede azul, excluída pelas outras três brancas que se erguiam imponentes em número maior. O rádio preto sobre a cômoda branca “deve ser o contraste do que eu ouço com o que eu visto” – pensou certa vez quando com os pés em cima da cama olhava para o teto decorado com estrelas e planetas fluorescentes. Um estudante completo, um artista perfeito, um neto exemplar, um filho escondido. Paulo.
“Para Evandro, você não tem noção do que você está falando, o menino chegou tarde em casa como chega todo final de semana. Evandro olha pra mim, eu to falando com você. Eu não te entendo mesmo, você pagou dois anos de terapia pra ele deixar de ser tímido, pra que ele fosse um garoto normal como qualquer um da idade dele e agora tá fazendo isso. Evandro, onde você vai? Evandro? Evandro vem aqui...”
Sempre havia freqüentado os melhores colégios da cidade, sempre havia vestido as melhores roupas do shopping, sempre havia sido o melhor amigo da sua mãe. Gostava de futebol, mas não apreciava, era fanático pelo seu time do coração, ou do coração do seu pai, só jogava na escola. É aquele garoto típico de rodinhas, está sempre cercado de meninas, do tipo engraçado, meio desengonçado, quase que bem formado – um adolescente como outro qualquer.
Trancado no quarto externo da casa, onde empilhava caixas de ferramentas e coisas que não usava mais, o pai, Evandro, filho de Mãe largada, irmão primogênito e mecânico da mais influente oficina de tratores da região, olhava pro chão procurando entender suas últimas palavras, talvez encontrasse entre as pedras caídas entre as caixas empilhadas a dureza das últimas palavras tremidas que havia expelido.
“Você acha que eu sou um monstro, um monstro desse tipo que se vê em filme na TV. Mas você nunca vai me entender, você nunca vai entender o que sinto... Minha vida nunca foi sessão da tarde Mulher, eu trabalhei deus de cedo e nunca tive tempo pra ficar de papo na rua. Mas aí o que acontece? Você casa, tem filho e quer dar tudo aquilo que não teve e ai numa mesa dum domingo de Deus, na hora do almoço você me fala uma desgraça dessas como se estivesse falando de algo normal? Toma vergonha nessa tua cara seu...”
As mãos rápidas recolhiam o resto de arroz ao pé da cadeira, enquanto da boca saltava qualquer oração baixa, dessas de coração de mãe, pedindo ajuda para saber usar da força que lhe são natural. Ela era a terceira filha de três. Filha de velhos aposentados. Dona de casa e fã de programas de culinária; vivia de sonhos e outros doces de festa.
“Paulo abre a porta meu filho? Tenta entender seu pai, é outra criação, você sabe que ele te ama e não falou aquelas coisas por mal! Eu sei. Eu só queria te dizer que ele te ama filho... Não fala isso Paulo, você também não sabe o que tá dizendo, é um descontrolado que nem o seu pai como se fosse adiantar numa hora dessas os dois ficarem trancados dentro do quarto como duas crianças pequenas e eu tenho que ficar aqui no meio como se eu não tivesse desesperada com essa coisa toda meu deus eu não sei eu não sei meu deus”
Do último quarto do corredor ouvia-se escorrer e pingar nos dedos inquietos dos pés sobre o tapete branco, um risco fino de desespero, aquele choro de quem não pode ouvir mais sua música favorita em seu rádio preto. Da ultima porta do corredor se ouvia escorrer e pingar sobre o avental, delicadamente bordado de azul e rosa “domingo”, um risco preto de maquiagem de terceira que dividia o peito num choro de mãe, num choro de medo. No fundo do quarto externo, ao lado de uma caixa aberta, ouvia-se escorrer e pingar sobre os dedos estendidos da mão, um risco branco de um gozo proibido das páginas de todos os homens que moravam empilhados naquele canto.
Os cômodos vazios suspiravam um ambiente que tinha na lembrança recente dos tintilares de garfos e facas e elogios saborosos em relação à comida, que ainda se mantinha na mesa e em perfume no ar, o ultimo estrondo da porta. Ao longe se ouvia um gemido baixo, um choro fraco que molhava os lençóis azuis do ultimo quarto do corredor. Paulo.
O rodapé era sempre enfeitado com uma bola de capotão encardida, pelo tempo, que ganhara no seu primeiro aniversário. Gostava de se deitar no chão frio do quarto, sobre o tapete branco que combinava com a única parede azul, excluída pelas outras três brancas que se erguiam imponentes em número maior. O rádio preto sobre a cômoda branca “deve ser o contraste do que eu ouço com o que eu visto” – pensou certa vez quando com os pés em cima da cama olhava para o teto decorado com estrelas e planetas fluorescentes. Um estudante completo, um artista perfeito, um neto exemplar, um filho escondido. Paulo.
“Para Evandro, você não tem noção do que você está falando, o menino chegou tarde em casa como chega todo final de semana. Evandro olha pra mim, eu to falando com você. Eu não te entendo mesmo, você pagou dois anos de terapia pra ele deixar de ser tímido, pra que ele fosse um garoto normal como qualquer um da idade dele e agora tá fazendo isso. Evandro, onde você vai? Evandro? Evandro vem aqui...”
Sempre havia freqüentado os melhores colégios da cidade, sempre havia vestido as melhores roupas do shopping, sempre havia sido o melhor amigo da sua mãe. Gostava de futebol, mas não apreciava, era fanático pelo seu time do coração, ou do coração do seu pai, só jogava na escola. É aquele garoto típico de rodinhas, está sempre cercado de meninas, do tipo engraçado, meio desengonçado, quase que bem formado – um adolescente como outro qualquer.
Trancado no quarto externo da casa, onde empilhava caixas de ferramentas e coisas que não usava mais, o pai, Evandro, filho de Mãe largada, irmão primogênito e mecânico da mais influente oficina de tratores da região, olhava pro chão procurando entender suas últimas palavras, talvez encontrasse entre as pedras caídas entre as caixas empilhadas a dureza das últimas palavras tremidas que havia expelido.
“Você acha que eu sou um monstro, um monstro desse tipo que se vê em filme na TV. Mas você nunca vai me entender, você nunca vai entender o que sinto... Minha vida nunca foi sessão da tarde Mulher, eu trabalhei deus de cedo e nunca tive tempo pra ficar de papo na rua. Mas aí o que acontece? Você casa, tem filho e quer dar tudo aquilo que não teve e ai numa mesa dum domingo de Deus, na hora do almoço você me fala uma desgraça dessas como se estivesse falando de algo normal? Toma vergonha nessa tua cara seu...”
As mãos rápidas recolhiam o resto de arroz ao pé da cadeira, enquanto da boca saltava qualquer oração baixa, dessas de coração de mãe, pedindo ajuda para saber usar da força que lhe são natural. Ela era a terceira filha de três. Filha de velhos aposentados. Dona de casa e fã de programas de culinária; vivia de sonhos e outros doces de festa.
“Paulo abre a porta meu filho? Tenta entender seu pai, é outra criação, você sabe que ele te ama e não falou aquelas coisas por mal! Eu sei. Eu só queria te dizer que ele te ama filho... Não fala isso Paulo, você também não sabe o que tá dizendo, é um descontrolado que nem o seu pai como se fosse adiantar numa hora dessas os dois ficarem trancados dentro do quarto como duas crianças pequenas e eu tenho que ficar aqui no meio como se eu não tivesse desesperada com essa coisa toda meu deus eu não sei eu não sei meu deus”
Do último quarto do corredor ouvia-se escorrer e pingar nos dedos inquietos dos pés sobre o tapete branco, um risco fino de desespero, aquele choro de quem não pode ouvir mais sua música favorita em seu rádio preto. Da ultima porta do corredor se ouvia escorrer e pingar sobre o avental, delicadamente bordado de azul e rosa “domingo”, um risco preto de maquiagem de terceira que dividia o peito num choro de mãe, num choro de medo. No fundo do quarto externo, ao lado de uma caixa aberta, ouvia-se escorrer e pingar sobre os dedos estendidos da mão, um risco branco de um gozo proibido das páginas de todos os homens que moravam empilhados naquele canto.
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
Eu escrevi um poema triste (Quintana)
Eu escrevi um poema triste
E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza...
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel...
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves...
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!
E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza...
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel...
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves...
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
Histórias de gente branca
E tudo parecia intencionar uma tranqüilidade que não se expressava nas mãos suadas, já amassadas que amassavam o lenço fino. O dom do trabalho pendurado nas paredes brancas se mostrava em rápidos textos e curtas assinaturas; a mesa limpa; o chão branco que insistia em transformar o forte cheiro do dentista em uma paz que não existia ali. Ela tremia dos pés a cabeça. Não se sabia se temerosa aos finos e afiados penduricalhos da bancada de procedimento ou se a sensação de que a dor que sentia até então fosse lhe custar uma úlcera ácida no fundo do bolso. Ela tremia.
Ao se aproximar o valente cavalheiro, vestido de branco e escondido por de trás de uma misteriosa máscara clara, vestiu suas luvas como se preparasse para uma batalha. Ela tremia. “Dr. Quanto custa pra distrair o dente?” Sabido da sua missão de distrair aquele que à mulher causava dor, o homem de branco entendeu que às vezes pra distrair a dor é preciso um bocado de sangue.
Ao se aproximar o valente cavalheiro, vestido de branco e escondido por de trás de uma misteriosa máscara clara, vestiu suas luvas como se preparasse para uma batalha. Ela tremia. “Dr. Quanto custa pra distrair o dente?” Sabido da sua missão de distrair aquele que à mulher causava dor, o homem de branco entendeu que às vezes pra distrair a dor é preciso um bocado de sangue.
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Na tua reza
De baixo de uma incomum chuva
Velhos arbustos plantados
Ao lado de novas flores
Silenciavam as orações
E no silêncio de uma tarde
De sexta-feira
O único som era dela
- Você saiu de mim, eu te dei o ar
saiam todos, saiam todos
Trovejava o céu escuro
- serei eu a única a te deixar ir
volte pra dentro meu pequeno, volte
E com as unhas sujas de terra
Cravadas as raízes
Uma mulher se reconstruiu
Velhos arbustos plantados
Ao lado de novas flores
Silenciavam as orações
E no silêncio de uma tarde
De sexta-feira
O único som era dela
- Você saiu de mim, eu te dei o ar
saiam todos, saiam todos
Trovejava o céu escuro
- serei eu a única a te deixar ir
volte pra dentro meu pequeno, volte
E com as unhas sujas de terra
Cravadas as raízes
Uma mulher se reconstruiu
domingo, 17 de outubro de 2010
Sem título nem fim
Da mesma cor do fim de tarde, ela penteava seus cabelos. Escorria pelos dedos tão novos, ora sujos de terra, ora sujos do dia, ora sujos de infância, alisando seus volumosos cachos sobre os ombros. Era no meio espelho que via o meio fio de seu rosto sereno e o sorriso de leite que amamentava seus olhos toda vez que sentia as cócegas de seu tempo diante os carinhos da manhã. Maria.
Era uma criança como outra qualquer, gostava de saborear as tortas de chocolates que enfeitavam os pós-almoços aos domingos. Ia à escola. Ia à catequese aos sábados de manhã, mas não gostava de acordar cedo aos domingos. Preferia o rosa e margaridas às rosas. Rodeadas de tão poucas primaveras, carregava nos bolsos curtos de seus shorts a delicia dos biscoitos de nata dos outonos e a incerteza natural de seus verões, mas sendo uma menina de tão poucas estações, tinha escondido no fundo do seu bolso esquerdo, em prontidão à mão que o segurava, o frio de um único inverno. Maria.
Gostava de sentar na guia da rua em frente à sua casa e olhar como as coisas se davam. Os cachorros corriam atrás de rodas de carros que corriam atrás, sempre, do fim das ruas. Entendia que os meninos brincavam de um lado diferente do das meninas, mas não sabia por que os homens, aqueles vestidos de sapatos, gostavam tanto de serem a própria roupa das mulheres que os acompanhavam. Sabia da importância dos livros, mas não entendia por que tinham de ser tão longos e dificultosos e era assim que passava as tardes de todos os dias, perguntando por que os quais e poréns se davam de forma tão findada, talvez não com essas palavras, mas o que ela mais saboreava, era fechar os olhos e imaginar um mundo sem perguntas. O que de certa forma a tornava contraditória, mas, talvez, estivesse aí a linha inicial: só nos cansamos de perguntar, porque perguntamos.
Rafaela era a mãe de Maria e esposa de Rafael – motivo mais do que comum para longas e belas histórias de amor, não tinha coisa mais bonita nesse mundo do que ter uma mãe com o mesmo nome do pai; só lhe desgostava nunca ter encontrado um Mario, que é diferente de Mário, diga-se de passagem. Cozinheira de família, Rafaela passava quase todo o tempo na cozinha, inventando receitas doces e salgadas e do alto da cadeira, tão longe do chão, Maria, que não gostava de perguntas, se perguntava dos sabores de sua mãe “como deve ser uma comida que não é doce nem salgada?”. No rápido e ríspido barulho do fim do ovo, olhando como se dava o fim da clara e o resgate da gema e descendo da cadeira, arrumando a alça da blusa que vestia “Eu acho tão estranho separar a clara da gema, o ovo não nasceu assim” caminhou até o portão de casa para ver passar os carros dos dias.
Com a mão dentro do bolso, apertava forte o seu pensamento mais constante e buscava no céu, como se lá existisse alguma resposta, o por que as coisas mudavam. Porque um gato miava e o vento soprava em vez de molhar, de onde vinham as respostas das perguntas e quem as criava. O morango só seria vermelho se morango fosse? E se eu brincasse de bola e os homens se vestissem de homens? “Será que um dia eu vou poder comer biscoito de nata no verão?” – pensou alto, o que franziu a testa do velho que passava.
Como sempre, cansada das suas perguntas, beijou seu inverno, a dúvida final, o recolocou no bolso e atendeu ao chamado de “Maria, tá na hora do seu banho meu amor”. Entrou em casa pensando. Durante o banho sabia que deixaria de tantas perguntas se tivesse a resposta da única flor que não desabrochara em si... Diante o espelho de sua penteadeira “Porque sempre Maria?”. Queria ser e fazer diferente e achava que o mundo mudaria se caso não se chamasse assim – e talvez de fato isso pudesse acontecer. Acariciando seus cabelos fim de tarde, depois do sorriso derramado teve a certeza de que deixaria de tantas perguntas só pra não chamar Maria. Mas era sempre Maria. Maria.
Era uma criança como outra qualquer, gostava de saborear as tortas de chocolates que enfeitavam os pós-almoços aos domingos. Ia à escola. Ia à catequese aos sábados de manhã, mas não gostava de acordar cedo aos domingos. Preferia o rosa e margaridas às rosas. Rodeadas de tão poucas primaveras, carregava nos bolsos curtos de seus shorts a delicia dos biscoitos de nata dos outonos e a incerteza natural de seus verões, mas sendo uma menina de tão poucas estações, tinha escondido no fundo do seu bolso esquerdo, em prontidão à mão que o segurava, o frio de um único inverno. Maria.
Gostava de sentar na guia da rua em frente à sua casa e olhar como as coisas se davam. Os cachorros corriam atrás de rodas de carros que corriam atrás, sempre, do fim das ruas. Entendia que os meninos brincavam de um lado diferente do das meninas, mas não sabia por que os homens, aqueles vestidos de sapatos, gostavam tanto de serem a própria roupa das mulheres que os acompanhavam. Sabia da importância dos livros, mas não entendia por que tinham de ser tão longos e dificultosos e era assim que passava as tardes de todos os dias, perguntando por que os quais e poréns se davam de forma tão findada, talvez não com essas palavras, mas o que ela mais saboreava, era fechar os olhos e imaginar um mundo sem perguntas. O que de certa forma a tornava contraditória, mas, talvez, estivesse aí a linha inicial: só nos cansamos de perguntar, porque perguntamos.
Rafaela era a mãe de Maria e esposa de Rafael – motivo mais do que comum para longas e belas histórias de amor, não tinha coisa mais bonita nesse mundo do que ter uma mãe com o mesmo nome do pai; só lhe desgostava nunca ter encontrado um Mario, que é diferente de Mário, diga-se de passagem. Cozinheira de família, Rafaela passava quase todo o tempo na cozinha, inventando receitas doces e salgadas e do alto da cadeira, tão longe do chão, Maria, que não gostava de perguntas, se perguntava dos sabores de sua mãe “como deve ser uma comida que não é doce nem salgada?”. No rápido e ríspido barulho do fim do ovo, olhando como se dava o fim da clara e o resgate da gema e descendo da cadeira, arrumando a alça da blusa que vestia “Eu acho tão estranho separar a clara da gema, o ovo não nasceu assim” caminhou até o portão de casa para ver passar os carros dos dias.
Com a mão dentro do bolso, apertava forte o seu pensamento mais constante e buscava no céu, como se lá existisse alguma resposta, o por que as coisas mudavam. Porque um gato miava e o vento soprava em vez de molhar, de onde vinham as respostas das perguntas e quem as criava. O morango só seria vermelho se morango fosse? E se eu brincasse de bola e os homens se vestissem de homens? “Será que um dia eu vou poder comer biscoito de nata no verão?” – pensou alto, o que franziu a testa do velho que passava.
Como sempre, cansada das suas perguntas, beijou seu inverno, a dúvida final, o recolocou no bolso e atendeu ao chamado de “Maria, tá na hora do seu banho meu amor”. Entrou em casa pensando. Durante o banho sabia que deixaria de tantas perguntas se tivesse a resposta da única flor que não desabrochara em si... Diante o espelho de sua penteadeira “Porque sempre Maria?”. Queria ser e fazer diferente e achava que o mundo mudaria se caso não se chamasse assim – e talvez de fato isso pudesse acontecer. Acariciando seus cabelos fim de tarde, depois do sorriso derramado teve a certeza de que deixaria de tantas perguntas só pra não chamar Maria. Mas era sempre Maria. Maria.
sábado, 2 de outubro de 2010
Coti e Mariana
Coti era o menino mais conhecido da rua das laranjeiras. Todos sabiam de suas travessuras, de suas notas ruins, da sua habilidade em jogar peão, dos seus chinelos sempre postos nas mãos e do pé de primavera que cuidava atrás da igreja. Todos sabiam. E era sempre assim, todo domingo, depois de tirar a batina branca e lavar a jarra de vinho, Coti corria com a molecada, barganhava uma pipoca – que dividia o saco com todos os seus amigos, é lição de santo dividir o pão e a pipoca – e iam jogar pedra nas galinhas e roubar mangas numa vizinha qualquer.
Numa quinta-feira da vida, Coti liderava o batalhão do Coalada – ele tinha aprendido sobre os Coalas na aula de ciências e por achar o nome bonito, nomeou a turma dos moleques com a graça do coitado do bicho e com o doce que mais gostava “coalhada da tia Nena”, a tia achava que não tinha nome melhor pra um bando de doces preguiçosos.
Enquanto ele admirava os meninos todos correndo rua abaixo pra se esconderem contando de um a cem espiando entre os dedos, pensava na ladeira feita de pedra, cheia de casas coloridas, seguidas pelo Ribeirão dos Namorados que corria no fim do vale e no pasto que soerguia logo após o Pulo Molhado (um bordelzinho de quarta categoria à beira do rio onde algumas senhoras iam trançar rendas e agulhas) e pensava “meu reino!”. E era assim que se sentia, Coti, rei de tudo que vivia ali, mesmo que já tivesse morrido.
Foi quando do alto de seu reino, ele engasgou o seu “LÁ VOU EU” com o rápido e singelo som de uma campainha. Era como se os anjos da igreja do Padre Ponce saíssem cantando de suas paredes pintadas jogando pétalas de flor por toda a rua. Vinha Mariana em sua bicicleta de rodinhas, a única menina da rua que tinha uma bicicleta rosa e por tal motivo fazia questão de desfilar todos os dias a tarde pelas ruas altas do bairro. Era filha de D. Sueli, a presidente do clube das virgens Maria. Mariana estava sempre ao balanço do seu vestido branco de flores amarelas e deixava o longo cabelo castanho corrido dançando ao canto e o sabor vento. Quando Mariana passava, Coti sentia como se todas as coisas do mundo estivessem em câmera lenta, como nos filmes que assistia na TV, e a vida perto de Mariana era tão gostosa devagarzinho. Ele não sabia ao certo o porque aquilo acontecia, só sabia que ela era o próprio perfume da flor e sem pestanejar trocava até três boas colheradas de coalhada para ver Mariana e seu carnaval passar.
Certa vez, Coti espiara Mariana repousar num galho de árvore. Era tão bonito ver sua perna cair pela madeira fingindo ser o próprio fruto rosado da mangueira e seu cabelo ser a brisa doce em seu nariz. Coti assustado correu logo dali, com o coração assustado ia passando passo por passo apressado, tremendo, de olho arregalado sem controlar o corpo querendo ser homem.
Diante seu reino e sua rainha, o moleque ajeitou sua bermuda baixa, calçou os chinelos e disse num solavanco “oi mariana você gostaria de passear comigo na beira do rio, tudo bem até mais ver” e tinha sido pescado por um sorriso bem claro. Mariana pegou na mão de Coti (que no momento desejava que seu coração batesse em câmera lenta também, tinha certeza que ia ter um piripaque) ajeitou o cabelo atrás da orelha e disse “vem”. Tudo seria angelical se não fosse a sombra de D. Sueli que se aproximava tão aterrorizada quanto os seus aterrorizantes e esbugalhados olhos de galinha brava.
Mariana puxou a mão de Coti e os dois desceram a ladeira correndo, rindo de tudo o que ficava pra trás, passaram-se os moleques, passaram as meninas, a igreja e a escola e corriam ladeira abaixo como se estivessem prestes a furar a infinita barreira do tempo.
Ao pé do vale, vermelhos e quase que botando os bofes pra fora, deram-se as mãos, acalmaram seus corações acelerados, descansaram ao lado do canteiro de flores do Pulo Molhado e sentiram que seus pés, cansados da ladeira da rua das laranjeiras, eram ora perto, ora longe, trocando inocentes carícias, os pés em que rio havia passado.
Numa quinta-feira da vida, Coti liderava o batalhão do Coalada – ele tinha aprendido sobre os Coalas na aula de ciências e por achar o nome bonito, nomeou a turma dos moleques com a graça do coitado do bicho e com o doce que mais gostava “coalhada da tia Nena”, a tia achava que não tinha nome melhor pra um bando de doces preguiçosos.
Enquanto ele admirava os meninos todos correndo rua abaixo pra se esconderem contando de um a cem espiando entre os dedos, pensava na ladeira feita de pedra, cheia de casas coloridas, seguidas pelo Ribeirão dos Namorados que corria no fim do vale e no pasto que soerguia logo após o Pulo Molhado (um bordelzinho de quarta categoria à beira do rio onde algumas senhoras iam trançar rendas e agulhas) e pensava “meu reino!”. E era assim que se sentia, Coti, rei de tudo que vivia ali, mesmo que já tivesse morrido.
Foi quando do alto de seu reino, ele engasgou o seu “LÁ VOU EU” com o rápido e singelo som de uma campainha. Era como se os anjos da igreja do Padre Ponce saíssem cantando de suas paredes pintadas jogando pétalas de flor por toda a rua. Vinha Mariana em sua bicicleta de rodinhas, a única menina da rua que tinha uma bicicleta rosa e por tal motivo fazia questão de desfilar todos os dias a tarde pelas ruas altas do bairro. Era filha de D. Sueli, a presidente do clube das virgens Maria. Mariana estava sempre ao balanço do seu vestido branco de flores amarelas e deixava o longo cabelo castanho corrido dançando ao canto e o sabor vento. Quando Mariana passava, Coti sentia como se todas as coisas do mundo estivessem em câmera lenta, como nos filmes que assistia na TV, e a vida perto de Mariana era tão gostosa devagarzinho. Ele não sabia ao certo o porque aquilo acontecia, só sabia que ela era o próprio perfume da flor e sem pestanejar trocava até três boas colheradas de coalhada para ver Mariana e seu carnaval passar.
Certa vez, Coti espiara Mariana repousar num galho de árvore. Era tão bonito ver sua perna cair pela madeira fingindo ser o próprio fruto rosado da mangueira e seu cabelo ser a brisa doce em seu nariz. Coti assustado correu logo dali, com o coração assustado ia passando passo por passo apressado, tremendo, de olho arregalado sem controlar o corpo querendo ser homem.
Diante seu reino e sua rainha, o moleque ajeitou sua bermuda baixa, calçou os chinelos e disse num solavanco “oi mariana você gostaria de passear comigo na beira do rio, tudo bem até mais ver” e tinha sido pescado por um sorriso bem claro. Mariana pegou na mão de Coti (que no momento desejava que seu coração batesse em câmera lenta também, tinha certeza que ia ter um piripaque) ajeitou o cabelo atrás da orelha e disse “vem”. Tudo seria angelical se não fosse a sombra de D. Sueli que se aproximava tão aterrorizada quanto os seus aterrorizantes e esbugalhados olhos de galinha brava.
Mariana puxou a mão de Coti e os dois desceram a ladeira correndo, rindo de tudo o que ficava pra trás, passaram-se os moleques, passaram as meninas, a igreja e a escola e corriam ladeira abaixo como se estivessem prestes a furar a infinita barreira do tempo.
Ao pé do vale, vermelhos e quase que botando os bofes pra fora, deram-se as mãos, acalmaram seus corações acelerados, descansaram ao lado do canteiro de flores do Pulo Molhado e sentiram que seus pés, cansados da ladeira da rua das laranjeiras, eram ora perto, ora longe, trocando inocentes carícias, os pés em que rio havia passado.
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