(Imagem: Troche - "Salir a Caminar")
[a TV fora do ar chia a expansão barulhenta do universo quando a programação subitamente volta ao ar]
- [...] Claro que não!
- [entrevistador faz uma pergunta em off
- São tantas coisas que aconteceram, acho complicado dizer aqui se houve uma causa clara.
- [...]
- Veja bem...
- [...]
- Sim, mas veja bem...
- [...]
- Concordo, mas veja bem...
- [...]
- E depois de você, o que é que há? Depois de você há ruas que se espalham por aí cheias de gente e de carros tão desorganizados quanto os nossos pensamentos. Depois de você tem serras, árvores, tem bicho deitado, tem bicho de quatro e de pé. Tem mar, espelho do céu quebrado. Depois de você tem nossa origem, tem nossa história, tem tudo aquilo que nos fez algo, tem rosas de barro cheirando artesanato novo. Depois de você tem cheiros, tem sabores, tem fé... Depois de você tem fé, tem a fé que é preciso ter para sobreviver, por que o que seria de nós sem os deuses que criamos? Depois de você tem o passado, tem o tempo parado rente ao futuro que quer cada dia ser maior. Assim, separados por um muro. Depois de você tem meio dia inteiro de diferença e sempre que eu amanheço você anoitece e a gente não se encontra. Porque o dia e a noite se amam, têm saudades, têm vontades, têm desejos, mas não se falam, não se compreendem, não se encontram nessa língua estranha que se usa. Depois de você tem uma infinidade azul, tem o espaço, a solitude, o pensamento. Depois de você tem gente que parece índio, montanhas e até neve. Depois de você tenho eu, de costas... Depois de você eu me encontro, vejo minha própria nuca ansiosa, olhando pra frente, tentando enxergar o que há depois de você.
- [...]
- Sim... Me desculpa, mas você trata esse assunto como se fosse qualquer assunto de auditório.
- [...]
- Se eu estou ou se eu quero?
- [...]
- Claro que não!
[Entra a música Jabitacá tocando ao fundo]
“Mas não me deixe navegar
Se já não crê no encanto deste mar
Se nossas manhãs se perderam nas ruas sem jardins”
[Entram os comerciais].
terça-feira, 28 de junho de 2016
Depois de Você
(Imagem: Troche - "Salir a Caminar")
[a TV fora do ar chia a expansão barulhenta do universo quando a programação subitamente volta ao ar]
- [...] Claro que não!
- [entrevistador faz uma pergunta em off
- São tantas coisas que aconteceram, acho complicado dizer aqui se houve uma causa clara.
- [...]
- Veja bem...
- [...]
- Sim, mas veja bem...
- [...]
- Concordo, mas veja bem...
- [...]
- E depois de você, o que é que há? Depois de você há ruas que se espalham por aí cheias de gente e de carros tão desorganizados quanto os nossos pensamentos. Depois de você tem serras, árvores, tem bicho deitado, tem bicho de quatro e de pé. Tem mar, espelho do céu quebrado. Depois de você tem nossa origem, tem nossa história, tem tudo aquilo que nos fez algo, tem rosas de barro cheirando artesanato novo. Depois de você tem cheiros, tem sabores, tem fé... Depois de você tem fé, tem a fé que é preciso ter para sobreviver, por que o que seria de nós sem os deuses que criamos? Depois de você tem o passado, tem o tempo parado rente ao futuro que quer cada dia ser maior. Assim, separados por um muro. Depois de você tem meio dia inteiro de diferença e sempre que eu amanheço você anoitece e a gente não se encontra. Porque o dia e a noite se amam, têm saudades, têm vontades, têm desejos, mas não se falam, não se compreendem, não se encontram nessa língua estranha que se usa. Depois de você tem uma infinidade azul, tem o espaço, a solitude, o pensamento. Depois de você tem gente que parece índio, montanhas e até neve. Depois de você tenho eu, de costas... Depois de você eu me encontro, vejo minha própria nuca ansiosa, olhando pra frente, tentando enxergar o que há depois de você.
- [...]
- Sim... Me desculpa, mas você trata esse assunto como se fosse qualquer assunto de auditório.
- [...]
- Se eu estou ou se eu quero?
- [...]
- Claro que não!
[Entra a música Jabitacá tocando ao fundo]
“Mas não me deixe navegar
Se já não crê no encanto deste mar
Se nossas manhãs se perderam nas ruas sem jardins”
[Entram os comerciais].
quarta-feira, 6 de maio de 2015
O Trono de Cimento e Sal
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
O retorno
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
Depois do Vermelho
quarta-feira, 1 de janeiro de 2014
Sabe quando meio atrasado com a vida (Vencedora do 3º lugar do concurso de poesia da biblioteca da Unesp de Bauru)
sábado, 17 de novembro de 2012
Quadros Cegos
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
Crônica do que termina mas não se vai
Após muita discussão e estratégias traçadas para que se decidisse a forma de socorre aquela senhora, agora companheira do inevitável fato da vida, um último contato foi tentado. Se fosse meia noite e a lua estivesse coberta por nuvens, esse seria um cenário de história de terror, mas não, era uma quinta-feira de manhã e tal qual a tranquilidade com que ela se iniciara, a senhora atendeu a porta de camisola e com cara de sono apenas disse: bom dia!
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
Refração
quinta-feira, 17 de maio de 2012
terça-feira, 10 de abril de 2012
segunda-feira, 26 de março de 2012
História d'água
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
O sol fez seu trabalho
Não havia mais palavras
Nem pensamentos ou esperança
Não havia mais de mim em ti
Nem eu, nem Maria, nem lembranças.
O outono chegou mais cedo esse ano
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
A flor que restava
Debruçada no parapeito de barro, Miranda observava mais um dia, que escorria como se o tempo fosse passando e passado, ensopado na roupa do varal que não seca, Mirava e só.
Era uma moça de corpo fino, mas não elegante, tinha em uma das mãos a firmeza do campo e na outra a incapacidade de apontar, não era bonita, tinha as pernas duras e marcadas e nos pés apenas o chão que pisava. Da janela, via o tempo escorrer e no fundo do pensamento, sem saber que pensava, sentia injurias e arrependimentos alheios, arrependida da chuva que outros pediram. Enquanto seu pai, meio adormecido na cadeira vermelha da cozinha, resmungava a falta de milho da estação enchuvarada, a vó cutucando com um garfo o braseiro do fogão explicava “o povo perdeu tempo demais com reclamações erradas, agora aguenta o choro de Deus desgostoso do que fez”.
A cor de terra seca que Miranda tinha combinava com seus mirantes cor de flor de umburana, era coisa mais bela que tinha, era a única flor que havia sobrado no sertão, era a última esperança que ainda floria. E sorria, pois achava bonito de imaginar que os cobreiros estariam todos alagados e as rolinhas entediadas cambaleando num galho seco qualquer. Não tinha inocência, não era mais criança, mas sofria a dura tristeza de não ter algo que lhe fizesse mulher, era perdida em si mesmo, em seu tempo.
Debruçada no próprio peito, Miranda contava em gotas as batidas fracas e melosas de seu Roberto na vitrola, enquanto lá fora o Homem aprendia que seja o sertão seco ou rio corrido, que o milho nasce apenas em seu tempo correto.
quarta-feira, 31 de agosto de 2011
domingo, 14 de agosto de 2011
Eu já estava lá, diante os pinheiros, em frente a placa amarela
Da ultima curva da estrada
E me perdi diante o azul que se estendia na minha frente.
Então me diz quais os vestidos, quais os destinos
dependurados ao sol eu devo usar quando for te encontrar.
Eu que pintada de claridade, deitei sobre o asfalto escuro
me deixei levar pelas tuas trilhas, profundas e florais
Estou parada, a beira da estrada esperando você passar
Pra me dizer, quais caminhos me levam até você?
Me diz quais caminhos me levam até você?
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
terça-feira, 12 de julho de 2011
O bêbado
Deitou a cabeça sobre o descanso do dia
E fez sua travessia.
Quando num outro portão
Abriu os olhos e percebeu
Que estava aos pés de si
e em si procurava
O último bilhete...
Mastigou a noite passada sobre a língua seca
Esfregou a áspera barba mal feita
E numa desfeita com seu leito
Partiu para o próximo deleite
Cambaleando carente para seu próximo abraço.
sexta-feira, 13 de maio de 2011
"Sing it for the world"
Como cantar ao mundo
o que você próprio não ouve
quando as palavras, letras e notas
não encontram o som preciso pra cantar
aquilo que se sente.
E isso tudo fica preso
essa alegria que chega doer
é uníssono com essa angústia sem melodia.
Não há sinfonia que explique a sensação
de sentir algo insensível.
Cantar ao mundo, para os homens e as mulheres
cantar até enlouquecer aquilo que te aperta o peito
botar pra fora esse peso, essa passagem, essa vida.
Isso não deveria soar como tristeza
e me desculpem se os faço chorar
mas, é que um sentimento quando é insensível
dói como se fosse a primeira dor da vida.
Não tem explicação. Não tem razão. Não tem origem.
Só queria que fosse possível
que tudo se acabasse numa simples canção.
quarta-feira, 4 de maio de 2011
O tempero de quê?
Eu conheci um homem que tinha, entre suas predileções, no toque dos dedos o sabor de todos os cheiros, conhecia através da textura de um tempero o solo de um país distante e o gosto de toda a gente que lá vivia. E ele me ensinou coisas sobre o tempero que damos às comidas, e a forma como se deve saborear a vida. Disse, assim como quem prepara uma fatia de pão para dar a um amigo, que através de petiscos e pequenas refinarias culinárias, que tudo se inicia por uma bela e saborosa entrada, que ao se convidar o paladar de alguém para palavriar sabores oferecemos pelo leite e pelo o açúcar, pela mãe e pela mão, pelo o amor e pela flor, um charmoso sorriso indecente da vida; é na entrada de uma refeição que proporcionamos e preparamos a língua para experimentar os sabores, calores e texturas de uma bem temperada refeição principal, como qual uma viagem, o antepasto seria o desejo de viver uma aventura inexplicável.
E no continuo movimento dos talhares, adentraríamos às pratas maiores para consumir a infinidade de temperos, odores e dores de tudo aquilo que envolve uma longa e complexa refeição, com seus grãos, com seus molhos, exageros e aguçadores sentidos. A refeição principal seria o beijo molhado pela boca adoçada pelo leite e pelo açúcar, reinventados na mãe e no amor, na mão e na flor.
E quando satisfeito, quando o corpo pede um descanso pra tanta gastronomia, quando os barulhos naturais daquilo que passou e continua passando em movimentos necessários para a vida, a sobremesa se serviria como se quisesse ensurdecê-lo, como se te conquistasse a boca, tranqüilizasse o corpo e te fechasse os olhos num prazer momentaneamente infinito... o descanso dos deuses, um manjar de coco.
Eu diria que teria sido em Istambul, na Itália, em Portugal ou no Brasil... mas a comida que me servem passa por dentro de mim. E hoje eu sou o leite das tuas bocas, sou o resquício dos teus aperitivos, almoço e janta passada, o contínuo caminho peristáltico da vida “não olhe pra trás” disse-me esse homem. Não olhe mesmo e não se esqueça de falar dos próximos países que irá visitar... O sabor inexplicável do universo é o sentido maior, mas para tal precisará entender que pimenta, cravo, canela fazem parte do tempero que dará o dom e o sal para sua e só sua Receita Fundamental. Bom apetite!