segunda-feira, 1 de agosto de 2011

que seja justo os ouvidos dos que ouvem as preces
dos injustiçados
e que na pressa de uma breve fé
esteja cravado em carvalho a lealdade de um amor infinito

terça-feira, 12 de julho de 2011

O bêbado

E o homem abraçou-se a si mesmo
Deitou a cabeça sobre o descanso do dia
E fez sua travessia.
Quando num outro portão
Abriu os olhos e percebeu
Que estava aos pés de si
e em si procurava
O último bilhete...
Mastigou a noite passada sobre a língua seca
Esfregou a áspera barba mal feita
E numa desfeita com seu leito
Partiu para o próximo deleite
Cambaleando carente para seu próximo abraço.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

"Sing it for the world"

Mas como?
Como cantar ao mundo
o que você próprio não ouve
quando as palavras, letras e notas
não encontram o som preciso pra cantar
aquilo que se sente.
E isso tudo fica preso
essa alegria que chega doer
é uníssono com essa angústia sem melodia.
Não há sinfonia que explique a sensação
de sentir algo insensível.
Cantar ao mundo, para os homens e as mulheres
cantar até enlouquecer aquilo que te aperta o peito
botar pra fora esse peso, essa passagem, essa vida.
Isso não deveria soar como tristeza
e me desculpem se os faço chorar
mas, é que um sentimento quando é insensível
dói como se fosse a primeira dor da vida.
Não tem explicação. Não tem razão. Não tem origem.
Só queria que fosse possível
que tudo se acabasse numa simples canção.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

O tempero de quê?

Eu diria que teria sido em Istambul, pela sua cor amarela, pelo seu cheiro de cravo pela poesia, mas não...

Eu conheci um homem que tinha, entre suas predileções, no toque dos dedos o sabor de todos os cheiros, conhecia através da textura de um tempero o solo de um país distante e o gosto de toda a gente que lá vivia. E ele me ensinou coisas sobre o tempero que damos às comidas, e a forma como se deve saborear a vida. Disse, assim como quem prepara uma fatia de pão para dar a um amigo, que através de petiscos e pequenas refinarias culinárias, que tudo se inicia por uma bela e saborosa entrada, que ao se convidar o paladar de alguém para palavriar sabores oferecemos pelo leite e pelo o açúcar, pela mãe e pela mão, pelo o amor e pela flor, um charmoso sorriso indecente da vida; é na entrada de uma refeição que proporcionamos e preparamos a língua para experimentar os sabores, calores e texturas de uma bem temperada refeição principal, como qual uma viagem, o antepasto seria o desejo de viver uma aventura inexplicável.

E no continuo movimento dos talhares, adentraríamos às pratas maiores para consumir a infinidade de temperos, odores e dores de tudo aquilo que envolve uma longa e complexa refeição, com seus grãos, com seus molhos, exageros e aguçadores sentidos. A refeição principal seria o beijo molhado pela boca adoçada pelo leite e pelo açúcar, reinventados na mãe e no amor, na mão e na flor.

E quando satisfeito, quando o corpo pede um descanso pra tanta gastronomia, quando os barulhos naturais daquilo que passou e continua passando em movimentos necessários para a vida, a sobremesa se serviria como se quisesse ensurdecê-lo, como se te conquistasse a boca, tranqüilizasse o corpo e te fechasse os olhos num prazer momentaneamente infinito... o descanso dos deuses, um manjar de coco.

Eu diria que teria sido em Istambul, na Itália, em Portugal ou no Brasil... mas a comida que me servem passa por dentro de mim. E hoje eu sou o leite das tuas bocas, sou o resquício dos teus aperitivos, almoço e janta passada, o contínuo caminho peristáltico da vida “não olhe pra trás” disse-me esse homem. Não olhe mesmo e não se esqueça de falar dos próximos países que irá visitar... O sabor inexplicável do universo é o sentido maior, mas para tal precisará entender que pimenta, cravo, canela fazem parte do tempero que dará o dom e o sal para sua e só sua Receita Fundamental. Bom apetite!

sábado, 2 de abril de 2011

Aula de Poesia

O jardineiro diante a terra batida
abateu-se com a falta de chuva...

O jardineiro veste sua roupa de sempre
afofa aquela sujeira natural
molha, planta e espera...

Ao nascer final da flor
no toque de sua recolhida
às mãos está a essência da beleza

Sinta.

Das letras estão o perfume, o toque e a cor
deixe os dedos para as mãos do jardineiro.

segunda-feira, 21 de março de 2011

de carro

Vamos lá...
senta. fecha. trava. liga. primeira.
tenta. afoga. xinga. liga. primeira.
segunda. terceira. quarta. quinta.
conversa. canta. conversa. silêncio.
árvore. boi. p..... buraco. xinga. esquece.
nuvem. verde. trilho de trem. po.... barbeiro. xinga. esquece.
sol. luz. gente simples. poe... ultrapassa. esquece.
vento. caminhos. planícies. poes.. pedágio. esquece.
lembranças. tempo. carinho. poesi. cheguei.

Eh! saudade do tempo que eu tinha tempo
pra viajar...

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Bodas de Safira

- Pode falar agora?

“E, entre os dois, a ideia de um sinal, traçado em luz...”

Ah eu não tenho muito do que reclamar, sabe? Não muito, por que um pouquinho a gente sempre tem né, a reclamância dá gosto pra coisa! Quarenta e cinco anos de casa, com casa e bem casada com o mesmo amor da minha vida e digo mais, nunca precisei se quer espichar o olho pra qualquer outro rapazote que me desse chance. E foi sempre assim, eu e ele, a viola dele e a minha gatinha, as flores dele e as minhas receitas, tudo assim, abençoado e saboreado por Deus, que nos proteja sempre, amém!

“A tarde dói... de tanto igual.”

A gente se conheceu era tudo mocinho, sabe? Meu sonho era encontrar um amor como aqueles que a gente se lia em livro, bonito, que parece bordado em renda holandesa de tanta flor que o romance enfeita, mas num acontece né menino, cê sabe como é né? A poesia é os traço delicado de tinta que pinta a cor dos olhos, e na maioria das vezes a gente leva uma vida cega. A gente se olhou, eu virei pro balcão e fiquei esperando minha bebida, quando eu olhei ele não tava mais lá onde eu tinha visto, não. Mas, pra minha surpresa, ele tava sentado bem do meu outro lado, parado com uma cara de assustado que dava medo... Eu? Ah eu devia tá com a cara mais assustada que a dele, foi a primeira vez que eu senti a leveza de um bordado holandês. Foi a primeira vez que eu senti borboletas na barriga. Ele perguntou meu nome e eu disse! Eu perguntei o dele e ele respondeu: Planura! O bicho tava tão nervoso que mal conseguia falar direito, falou onde morava no lugar da graça que tinha, o que teve sua graça; Eu que já tinha me encantado por aqueles olhos escuros e assustados, chamei o garçom e pedi algo que pudesse deixar ele mais tranquilo e aí depois disso o depois se tornou agora e a coisa toda aconteceu acontecendo por quarenta e cinco anos bem casados e repousados nas mãos de Deus, que nos proteja sempre, amém!

“Que luz que faz...”

Lembro que quando ele foi conhecer meu pai, ele chegou vestidinho com um terno que eu nunca tinha visto. Mais velho que os pano que a minha mãe usava pra limpar a casa, mas tava formoso, com o cabelo penteado de lado e uma sacola na mão, trouxe trufas pra sobremesa da janta... O meu pai? O meu pai já foi logo de bica soltando um “chocolate pra adoçar o que, rapaz?”, mas tudo se deu bonito, ele teve a sorte do meu pai ser professor de biologia da escola de ensino médio da cidade e gostar tanto de flor quanto o próprio que era dono de uma floricultura lá na cidade dele. Ele me chama de “minha flor” até hoje. Inclusive nosso casamento foi o “casamento mais florido que a cidade já viu”, saiu no jornal. ... Pra que falar de problema se a vida foi muito mais bela do que feia? Menino, entende uma coisa, tamarindo é azedo, mas é você que escolhe chupar ele ou não, entendeu?
“Mas, a voz diz...”

A Alice é minha gatinha desde tempo de moça, ganhei do meu primeiro namorado, ele não faz ideia disso ... Vixe é mesmo, vai fica sabendo agora! Ah, fica tranquilo, nosso nó tá mais do que bem dado já! Ele tem muito medo de borboleta, sabe? O que de certa forma chega ser engraçado, porque um homem que mexe com flor não podia ter medo das suas damas, pois tem. Pelo contrário, Alice adora uma borboleta. Tava pensando, borboleta é um bicho que tá sempre na nossa história. Ele morre de medo, a gata gosta de brincar e eu, eu sinto elas na barriga que nem da primeira vez, todo dia, quando o portão abre as 18h da tarde. Não sei dizer por que e prefiro nem saber por que, tá tão bom do jeito que tá, elas se avoam todas dentro de mim, deve ser daí a leveza do meu amor.

... Ah, o resto de tempo que Deus, que nos proteja sempre, amém, puder dar vida pra nós dois. Eu tive um filho só, um filho bem tido, daqueles de encher de orgulho o peito da gente, cheio de problema que nem o pai dele, que nem eu, mas quem não tem problema? Só sei que dos problemas que ele me deu, os mais gostosos passavam o domingo correndo, outro sempre arrebentava as corda do violão do avô dele e a outra gostou sempre muito de jogar bola... Três netos, uma molecada linda de dar gosto, dois menino e uma menina. Do resto, não tenho do que reclamar muito não. Até porque eu to véia, e a minha pouca reclamância é charme da minha idade E só peço aos céus a força final, o ultimo tranco pra dar conta de sentir que eu passei por essa terra e que to indo embora dela com as unha suja, do resto, eu vou ser feliz.
“Motriz...
Matriz....
Motriz...”
- Corta!