sábado, 18 de setembro de 2010

Carta de Dolores Maria de Menezes e Paulo

Boa noite meu filho

Esta carta nasce hoje como um suspiro de não se ter mais certezas das coisas que permanecerão vivas.

Eu me chamo Dolores Maria de Menezes e Paulo, tenho 65 anos e sinto como se a minha vida estivesse se estendendo para um longo leito de não se saber mais existir. Hoje tive um encontro. Não sei exatamente dizer se fora um encontro de amor, mas a algo que arde em mim essa noite que não consigo dizer se me faz fogo de uma velha paixão ou se me faz fogo por fogo.

Recebi a visita de um homem que não esperava. Conversamos por três horas seguidas afim de chegarmos num entendimento entre as minhas vontades e as vontades dele. Mas apenas corre em mim a sensação do desejo, de ser poetiza.
Casei-me com 15 anos. Meu pai guiava locomotivas pelos estados de São Paulo e Minas Gerais e minha mãe era uma dona de casa que gostava de fazer suas próprias panelas de barro. Sentava conosco – Somos cinco lá em casa, numa ordem decrescente, Eu, Irma, Aurélio, Bonâncio e Olívia – e passávamos boas longas tardes massageando o barro, amando a terra e nos enfeitando com todas aquelas quinquilharias que criávamos com o barro gemido.

Em 1962, houve uma festa nos fundos da igrejinha para comemorar a formatura da nova turma de datilógrafas. Eu não fui. O homem com quem dividia os lençóis de lírios amarelos havia me trancado em casa e sua voz insistia em se debater por todas as paredes de madeiras e a casa gritava tão alto quanto a sua garganta que arranhava dizendo, não, mulher nenhuma que se preze usa seus dedos para outra coisa que não no fogo esquentar, na água esfregar, na agulha me vestir e na cama se sujar, e os ecos que ali batiam não sei!..

Olívia uma vez, fez o favor de pegar o balde onde mamãe guardava a lavagem dos porcos e virar sobre si mesma. Foram só risos aquela tarde. Irma não saiu do balanço da jabuticabeira, Aurélio e Bonâncio cantavam qualquer rima endiabrada que viesse mais tarde irritar mamãe enquanto eu corria ao auxílio dela que sujava suas mãos no barro. Olívia precisou de uns sete banhos com sabão feito de gordura de porco para que conseguíssemos distingui-la dos que gruíam ao lado dela, já que era tão roliça quanto qualquer suíno rosa daquele sítio. Olívia era negra.

E quanto mais eu chorava, mais papai me batia. Gritava como um cavalo e cuspia seu fumo a cada cinco palavras – desavergonhada, isso sim, já te esperam com cravo em paleta e você me choraminga desesperos de não se casar? Todos os meus livros foram queimados aquela noite. Debrucei-me sobre a janela do quarto e olhava atenta, escutando a luta entre o ribeirão que corria à direita e a fogueira que estralava à esquerda. O fogo era tão brilhante quantos os olhos de Helena, tão veloz quanto às pernas de Iracema, tão vermelho quanto a marca de meus olhos.
Carlos José de Menezes e Paulo Filho, sim, exatamente dessa forma. Era como se um sonho, materializado sobre meus braços, olhasse-me intimamente e silabasse num sorriso: Mãe.

Logo depois, no natal de 1949, os meus tios por parte de pai, todos sentados a mesa, trocavam rápidas e poucas palavras; não se trata de ser uma situação confortável, a questão é que em noite de natal sua mão não deveria estar suja de barro. Olívia choramingava em seu berço de palha enquanto Aurélio, Bonâncio e Irma dormiam sobre as novas mantas que haviam ganhado de minha avó. Eu olhava, acho que não entendia o significado de tudo aquilo.

Mas, é justamente por isso que Carlos havia me comprado aquela cesta. No verão de 1975, meu marido havia sido promovido na fábrica de tecidos em que trabalhava, ficava no bairro do bexiga e enquanto descíamos a serra ele gargalhava, enquanto aquela cambada de italiano insiste em produzir macarrão, eu fico rico. Salve pátria produtora de tecidos. Não sei se ele sabia muito bem o que dizia, mas o Guarujá surgia de trás de um ipê roxo e a estrada que só descia ao lado da ferrovia nacional se enfeitava de verde, roxo e amarelo.

As três horas que passavam, fazia do quarto um lugar quente, eu estou agora da forma como fui deixada. Sobre os meus velhos lírios amarelos, sinto a pele suada por debaixo da minha seda branca e alguma coisa sangra em mim. Não devia ter sido tão amada, me deixei levar por tantos afagos, mas era apenas o escuro, minha cama, aquele sorriso e a vontade de amar.
No outro dia, Carlos vestia um terno marrom e prendia um cravo amarelo na camisa velha. Havia um sorriso. Era o dever cristão sendo cumprido. Padre Mariano sabia melhor que qualquer velha daquela região, ler o bordado dos olhos de uma mulher triste. Era o único sorriso. Em nome do Pai, em nome de Filho... meu nome se desfez.
Lembro que os presentes não foram abertos. O natal havia terminado antes mesmo da meia noite. Um tio sussurrava por debaixo do busto goticulado de suor que o bom velhinho de tão bom virou ceia dos porcos da fazenda. A única canção de natal vinha do berço rejeitado, um choro seco como castanhas, duro como uma avelã. E minha mãe, deitada no quintal de terra olhava para o céu e para as estrelas e fazia panelas. Eu era filha de uma puta com a Lua.

Foi uma bronquite crônica. Sim é lindo o caixãozinho branco.

Os meus dedos formados, aquela noite serviram apenas como carne. Minhas anáguas rasgadas pareciam bandeiras de paz num campo de guerra onde só se ouvia um único estourar. Eu quase desejava, era um limiar pouco na tentativa de desejar, já que gosta de datilografar, façamos a prova final e meu pulso vermelho, marcado a cinco dedos ia dançando no letrar de uma máquina. De dentro do salão imperial Helena era posta no colo e levada nos braços escadaria acima, as cortinas brancas dos aposentos íntimos foram cerradas e a poesia ia sendo digitada sobre as pernas fortes e largas, e a poesia ia sendo borrada nas duras e peludas coxas e a carne dura que pulsavam altas veias e vermelhejava um lustre que me foi engolido. Uma comédia, não um romance, além de datilógrafa é cantora. Gostos!

As praias estavam desertas e Carlos dormia, tão lindo, tão homem, meu homem.
...
...
Eu somente fechei os olhos e pedi a Deus que esse sonho terminasse logo. Eu estava apaixonada por aquele rosto, por aquele beijo, por aquelas palavras, por aquele respeito. Não era Carlos. A praia deserta de mim mesma. Afogada.
Um homem me visitou hoje. O escuro, o sorriso, o tempo, a cama e o sangue não sangra de mim. Eu me chamo Dolores, tenho 65 anos, hoje escrevi um poema sem Carlos saber. Escrevem-se poemas com punhais? O Diabo me visitou hoje e agora, enfim, tenho minha historia contada e sangrada.

Adeus

“Glória a Deus senhor nas alturas e viva eu de amargura nas terras do meu senhor”

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Wind south


Enquanto o verbo
sempre soprando azul friozinho;

o vento
ama, sofre e ri
querendo como que somente

Verbalizar...

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Quarto de Menina



A lata na cabeça
passa sujando os pés
de pó.
Os varais secos
chupam ar quente
enquanto
aqui e ali um portão
bate...

- Toda assim pequena
que numa janela
se alumia, enquanto
numa outra chovia.

A lata na cabeça
volta sujando a barra
de barro.
Os varais pingando
chupando a lima molhada
enquanto
aqui e ali um portão
abre...

- Da minha janela
eu faço os dias.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Cadeira nem beira


Quando tudo se apaga
é sinal de que o tempo
se esgota na sede de correr...

Cada passo desse chão
cada ponta para o céu
cada vivo que se morre noite
cada boca que sim diz pro véu

Cadê? Eu hei de perguntar...
Cadê? Onde estão aquelas folhas
[e aquela brisa de verão]

Cada soco violento
cada rio violento
cada riso violento
cada hora violino

Cadê? Eu não temo em choramingar...
Cadê o homem que me botou assim?
[e aquele escárnio a pulsar]

Cada vez que estou
cada membro que está
cada colo que estarei
cada beijo a duvidar

Cadê? Não paro de gritar...
Cadê você que me tortura e acha graça?
[glória aos homens por ele amado]

Cada vez que eu repito
cada verso traz um desgosto de
cada vez mais me segurar aqui
cata-versos a me entupir

Cadê o dono desse lugar?
Cadeiras cavadas pra me esconder
[não há cama, nem ferrão a me esperar]

Cada morte que se passa aqui é
cada gente que se salva por
cada palavra guardada, mesmo que torturada
cada qual besuntada na sua delícia de não dizer

Cadê?
Foda-se!

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A história da contente Maria


Enquanto as mulheres
bordavam os cachos de seu Francisco
e as crianças pintavam areias
diante o céu que se erguia e se coloria
Dos canaviais
ali de trás daquelas casas
todas tão pequenas qual pedrinhas de lajeados
ouviu-se um choramingado que abria o amanhecer.

Era ela tão morena
Toda assim sem nem caber de pequena
Com um terno tracejo sorria
E por ser tão emariada
Que sua doce Ana, caiana, mãe
Resolveu lhe chamar de Maria.

Quanta luz se fez no sertão
Toda gente apertava os olhos
Tão grande era o clarão
De quando passava Maria

E toda a terra a amava
Em seus olhos de beterraba
Seus cachos trançados de rio de prata
E na sua singela roupa de lona de circo
qualquer princesa que se cruzava
Maria sorria, pois sabia das asas que tinha.

Mas Maria, que tanto sorria
Era só o único alumio do brejo da gota.
O céu puramente azul
sem qualquer tipo de imaginação de algodão
rachava o solo sempre que ela se ria
secava as floridas cestas da vila
sempre que ela corria
matava – de sede – enquanto Maria vivia.

Maria que era assim, um cirquinho de conchinhas
passou... passada fez de sua lona
um imenso vestido de estrelas.
Com sua renda no cabelo
mantinha seus olhos pequenos
e o leite que escorre de sua boca, raiava o dia como sempre

Tanto sois dessa menina
tantos sonhos dessa meninona
tantos sorrisos dessa mulher
trincava cada menino, cada mulher, cada senhor
e a vida, imitando algo que não se via
escorria.

Uma história tão assim
cheia de uma luz que ardia de olhar
secou o sertão, o dissolveu em grão
Ela, foi aclamada enquanto descansava
no avarandado da alegria.
Com as bocas secas, era rogada:
- Então, não sorria Maria.

Boas Novas

Hoje começa uma nova fase no tão novo "pra não chamar Maria".
Surgiu uma ideia maluca na minha cabeça e eu pedi para um amigo ser meu comparsa e ele aceitou. A partir de hoje, o blog publicará junto de suas poesias a leitura fotográfica destes poemas por Leonardo Santangelo.
A brincadeira é mais ou menos assim. O Poeta lhe envia um poema e, assim, esse fotografa o seu sentimento diante o escrito. Assim como haverá poesias que serão a expressão de algumas fotografias.
"Acho legal que cria uma interação maior entre os dois papéis (poema e foto) porque poe a pessoa a questionar, tanto o que leu quanto o viu." (Leonardo)
Hoje o pra não chamar Maria invade a rede com a máxima manifestação da arte onde aquilo que foi sentido e escrito por um passa a ser sentido e fotografado por outro criando uma terceira expressão artística: a sua leitura. Bem vindo ao "pra não chamar Maria", fiquem a vontade e saboreiem o máximo.

Ode matinal ao que não se vai


E hoje de manhã eu quase morri.
Aquele monstro seco que me habita
Remoeu, gemeu, arranhou
Enfezado a vida que não quer ter
A cria dura de uma fase não resolvida
O filho bastardo do ontem
Quebrou minha coluna ao meio
sangrou minhas entranhas
e em três pontos se disse feito
mas não
persiste a dor
num caminho de fim de giz
num resto amargo de boldo
no filho morte
no sonho de expelir
-pelo amor de deus
o mal que me preenche.